Super-Hiper-Mega Protegidos

Queridos pais,
Como estão?
Venho dar-vos as boas novas da minha semana.
No passado sábado, fui assistir a uma palestra – chamemos-lhe assim – do Prof. Dr. Carlos Neto sobre os “Declínios da infância”. Primeiro, de lamentar a falta de assistência. Muito poucos pais a assistir, poucos educadores, poucas pessoas. Porque isto da infância diz respeito a todos, certo? Todos nós já tivemos uma, acompanhamos a de alguém na família; ou fiquei na dúvida se… isto da infância é só mesmo para quem está a passar por ela e pronto. Será?

Bom, o que é certo é que saí de lá muito, muito inquieta com o tema. Foi abordado de forma muito clara, com números oficiais e estudos credíveis sobre problemáticas bem actuais na infância. Pais queridos, a realidade é a-ssus-ta-do-ra! Aliás, é só abrir um dos canais de notícias na nossa televisão, a qualquer hora do dia e percebemos o estado em que o mundo está… não é nada de admirar.
A minha esperança está em si! Porque parou para ler esta Carta. Sinal que está interessado sobre o que se está a passar à sua volta e isso conforta-me tanto. Obrigada!
Voltando a um dos temas abordados na tal palestra – A SUPER PROTEÇÃO – foi ponto de ordem.
Falou-se em vários motivos que podem estar na origem de os pais neste momento estarem a sufocar de tanto proteger as suas crias. Duma forma que nenhum outro ser vivo faz. Uma coisa nova que surgiu com a chamada Evolução dos tempos. Cheira-me que chamamos evolução, para não chamar em muitas casos o Atrofio dos tempos.
O caso Maddie foi falado e foi dado como uma das causas… possíveis. Talvez. Temos a comunicação social sempre em cima desses acontecimentos. Agora até uma novela, retrata o sofrimento de uma família em que desaparece uma filha. Isto tudo mexe muito com os nossos neuroniozinhos e o medo, cresce, cresce, cresce, cresce e transforma-se num monstro giganteeee e muito assustador. Entretanto, o outro lado da moeda, há medida que o monstro cresce, as crianças encolhem, encolhem, encolhem, encolhem e atrofiam, atrofiam, atrofiam…
Isto explicará, ou poderá ser uma das explicações para as crianças não andarem e não brincarem sozinhas na rua, mas e então o que se passa com aquelas que não podem cair? Que não se podem sujar? Que não podem correr livremente sem um “CUIDADO!”; “Olha que VAIS CAIR!”; “Isso É PERIGOSO.”; “SAI DAÍ Manel! Antes que caias.”; “A mãe ajuda-te para NÃO CAIRES.”; “Ai nem pensar ires para aí, SÓ QUANDO FORES MAIS VELHO…”;… mais velho e ATROFIADO porque entretanto vais GANHAR MEDO de tudo de todos. E estes casos? Que quando vão à praia se equipam de fato de banho com bóias, mais braçadeiras e com sorte uma bóia à volta da cintura. E com os pais sempre de volta deles porque “ai Jesus se a onda o leva e nunca mais vemos o menino!”. Talvez isto justifique que alguns pais não gostem de ir à praia com os filhos. Acaba por ser um enorme stress, imagino. Não se divertem, não conversam, não relaxam, não nada. Acabam por andar a “servir” os mais novos e quando eles dizem “vamos a água!” – eles vão; “Enche-me o balde com água!” – eles vão. As 1000 mil vezes. Muitos pensarão: “assim não vai ele e há menos risco de ser levado”.
Pais, meus queridos pais, Não! Os acidentes acontecem com todos, todos temos essa noção, certo? Quantas vezes acontecem quando estamos a ser tão, tão cuidadosos?
Quando protege os seus filhos assim vai fazer com que eles não ganhem defesas, não saibam medir o perigo e isso sim é perigoso.
É tempo de conseguir relaxar enquanto os vemos a chamar por nós porque não conseguem descer da árvore ou dum baloiço no parque. Eles subiram, por isso, arranjarão um jeito de descer. Dê-lhes tempo! Relaxem. Apoiem-nos e digam “vá lá Afonso! Tu és capaz!”. Encorajem a serem destemidos e corajosos, não o contrário. Não os tornem tão frágeis que um dia serão vítimas de bulling por parte dos outros. Não os transformem em seres de vidro porque a vida não os vai tratar assim. Não os obriguem a crescer à pressa, quando vocês não estiverem por perto, por favor. Permitam que eles sejam desenrascados, cheios de vida, mesmo com mazelas de cabeça partida ou dentes. FAZ PARTE. Isso faz parte de crescer. Isso é uma arte que faz parte da vida e de viver.
Que fique claro que não recomendo que os ponha na piscina e vá beber um cocktail descansado e ele que se desenrasque. Por favor, não me interprete mal. Quero apenas que reflita nisto e que dê o melhor de si.
Queremos um mundo recheado de crianças fortes, que se desenrascam, que tem iniciativa, sem medos, ou os mínimos possíveis. Não queremos um mundo de “totós” (como referiu Carlos Neto, na palestra). Queremos crianças rijas, preparadas. Especialmente, porque isto é bom para elas. A auto-confiança é um bem precioso. E nós podemos e devemos ajudá-las a construir isso. É um tesouro interior que nos faz enfrentar grandes batalhas que, no fundo, é o que enfrentamos constantemente na vida.
Por isso, pais amados, amem os vossos filhos de forma livre. Deixei-nos voar. Eu sei que só tem esse, sei que é o vosso bem mais valioso, mas quando evita acidentes está no fundo a provocá-los porque, como referi, eles não vão conseguir depois defender-se e, mais tarde, isso vai se traduzir-se em enormes problemas e aí, já não os trataremos por acidentes. Foram coisas provocadas intencionalmente, porque o amor os sufocou.
Deixem as calças rasgar, as feridas nos joelhos, deixem que tudo aconteça naturalmente.
Dêem-lhes “armas” para se defenderem, falem abertamente das coisas em casa, não escondam o que se passa no Mundo e os acidentes que acontecem. Dêem asas. E deixem voar.
Eu estarei aqui a acompanhar, para ajudar e guiar quando precisarem. Esta é a minha missão e convicção: que vocês passem a viver a parentalidade com menos culpas, com menos ansiedades e com menos dramas. Calma, relaxem, Confiem.
Beijinhos muito grandes a todos ai em casa ❤
Da vossa, Carolina

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